LXXIII
Minha prima portuguesa também temia os aviões. Por quê, eu sinceramente não sei. A verade é que o primo outro é que era um perigo. Metido a aviador, sete anos, apontava para o céu e determinava: um Paulistinha. Na época, só conhecia árvores e uns pássaros. Assustava o pássaro preto, seu canto, sua cor. A cor do pássaro preto é a cor da morte sim senhor, dizia o homem negro que vendia quebra-queixo em frente à escola. Era vaticínio, era destino, era o quê? Ia para casa pensando: será que vou morrer? Enquanto isso, praticava malabarismo num muro de pedra, sob a mangueira, e minha irmã negociante vendia ingressos para o cirquinho. A tia, mais tranqüila, sentenciava: umbu de tanto dar ficou sem rabo.
Escrito por Lé às 20h56
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LXXIV
Quem me anunciou a primeira morte foi um colega, que contou: bala cor-de-rosa dá câncer.
Cor é sempre um perigo, avisava a avó, que descoloria os mamões em doces que não podia engolir. Já o câncer cor-de-rosa convenceu-me. Dei todas as balas ao arauto do incontrolável, que retonrou a sua casa, naquele ônibus apodrecido, chupando-as, feliz da vida.
Sou imediatamente que fora enganado. No mesmo dia, meu tio comprava um falso bilhete premiado na loteria. Quem não se engana não aprende a perceber a mentira.
Escrito por Lé às 20h53
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