LXXVI
A polícia pediu os nomes de quem batia panelas. A vizinha dançarina não titubeou. Minha mãe fugiu de fino, a autoridade captou no olhar, mas preferiu engrossar a vista. Estava do nosso lado, mas não podia fazer nada, as ordens vieram de cima, quão acima é que são elas.
A polícia também entrou no Carnaval e decretou-me assassino confesso, agarrou-me sem explicação, saiu nos pontapés, e eu só ouvia: é ele, é ele. Para explicar, não precisei de horas, apenas oras, e o dedo-duro teve de admitir: não é. A sua cara é vulgar, cuspiu o sargento, e eu tive de concordar. Tipo comum, vai ser o mesmo na vida. Determinei-me a estar sujeito todo o momento a qualquer surpresa na vida, qualquer surpresa do gênero desagradabilíssimo. Vira de lado, vira-lata.
Escrito por Lé às 22h05
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LXXVII
O segredo do hot-dog é que eles sempre se parecem, filosofou meu pai, já emendando que o artista é o mestre da repetição, o doutor da cópia.
Não é assim hoje, o que conta é a fusão de tendências, já que não se pode inovar. Considere: molho de tomate não substitui o catchup, mas que tal acrescentar batata-palha?
A idéia era boa, em frente à faculdade, quanto mais amido, mais satisfeita fica a larica, bicho que infestava os intervalos. Reconhecia o pai: ajudava no negócio do cachorro-quente.
Escrito por Lé às 22h01
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LXXVIII
Quem leu até aqui pode pensar: nunca nadou. Nem se afogou. Ocorre que não foi bem assim que se passou a jornada. Peixe é uma coisa, homem é outra. Porém não há prova em contrário, se alguém o afirmar. Pois os genes não são tão parecidos?
O que me cansa nessa história de genes parecidos é o seguinte: na hora de fazer o cálculo do risco da construção de uma usina nuclear, que peixe contestou o trabalho do homem? Ainda que os peixes reconheçam a ousadia e a suprema capacidade de não ouvir do predador maior, não está clara a razão de não se manifestarem.
Os cães, todos vendidos, não cansam de apoiar o mais forte, e tem razão a amiga quando diz que gato é mais inteligente. O cão, pobre, pensa ser homem. O gato acha que o homem também é gato. Não por acaso, morde peixe quando pode, numa vingaça talvez desnecessária pela cumplicidade.
A teoria está posta, a mesa está posta. Quem quiser que conteste. Mas respeite, faça-me o favor, a hora sagrada da refeição.
Escrito por Lé às 21h58
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