LXXIX
Refeição, para a tia, era um belo pedaço de carne crua, especialmente quando faltava-lhe o comprimido de efeito poderoso. Outra preferência era pelos provérbios: gato escaldado tem medo de água fria, ria, aproveitando a rima passada. Mas isso só me chegou sem a poesia, de modo que não podemos passar a versão completa adiante.
Quando dava para cantar, a família tranquilizava-se: Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão. Não conhecia a versão politicamente incorreta, que não saía da boca das crianças, hoje, sobretudo, limpas na mais tenra idade, quando a tia ou a profa ensinam a não atirar o pau no gato, pois o gato-tô é nosso amigo-gô.
Pena, pois sem a boca da criança, a vala negra da linguagem perde seu poder adubatório.
Escrito por Lé às 21h03
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LXXX
O louco corria como o vento, no pátio da escola. Isso é lugar, perguntei-me, mas já me imaginando na mesma desabalada carreira. Estava só neste dia, ninguém me vigiava. Serei louco também, conclui. E saí na pressa maior que um garoto pode encontrar.
Pois tropecei. E na queda, um outro endoidecido, tal que também corria sozinha, acompanhou-me. Só que o tal, mais esclarecido, houve por bem abrir a boca, donde seus dentes de leite cravaram-se na minha orelha esquerda, passando esta a sangrar.
A irmã não podia com sangue, mas agüentou firme. Foi até o hospital, fiu a costura da corne, tudo ia bem, até que, num virar, o médico diagnosticou: a menina está com amidalite. Vai ter de operar.
Já? Já. Como, doutor, só vim ver o mano, o maninho, usou o diminutivo, mas não conseguiu despertar a mínima piedade. E o médico e seu assistente prenderam-na à cadeira, meteram um gás no seu rosto, ela começou a rir (como assim, perguntei-me, estarrecido). Dormiu.
Acordou cospindo (melhor dizendo, vomitando) sangue, o que mais detestava. Teve de se habituar.
Escrito por Lé às 15h22
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