LXXXI
Só se vomita aquilo que se come, foi um ditado que correu, num dia em que faltaram médicos para tamanha atividade provocada por uma almôndega mal-preparada.
Pois bem, tive a chance de comprovar o erro do ditado, na vez única em que nada comi, apenas bebi, e o vômito reproduziu-se sem qualquer hesitação, sem alguma cerimônia.
E cerimônia é coisa séria. Pois houve ainda a vez em que chegou o videogame, o primeiro da segunda geração, e tomou a atenção de todos na casa. O jogo agora ia para a televisão, era solução para tudo, para a proibição das cartas de mulheres nuas (liberadas apenas para meu pai e minha avó), para a escassa programação televisiva, para os dias de chuva, em que o futebol, ainda que praticável, encontrava forte oposição familiar.
E jogamos. Jogamos eu, meu pai, minha tia. Senti-me o bicho da poesia: "Enrola, enrola, enrola tatu-bola/ Enrola teu pai, tua tia, tua sobrinha/ A terra tua é o mundo/ Que despreza a companhia...". De fato, todos envolveram-se no pecado, mas nenhum tivera tanta responsabilidade: afinal, o único que se propusera a ir à missa das sete, da noite, havia sido eu.
Deveria me confessar? Mas ainda nem passara pela minha primeira comunhão. A lua surgindo e eu decidi: hoje não tem cachorro-quente, mesmo que eles fossem sagrados no domingo.
Escrito por Lé às 19h23
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LXXXII
Ela gripou pela segunda vez, e pela segunda vez lançou seu corpinho por sobre a cama como quem deseja espalhar-se indefinidamente. Parecia um escargô, escapado da concha, parecia um boizinho, um carneirinho jogado no pasto, movimentando apenas as mandíbulas e deixando praticamente estéril o solo que sua boca podia alcançar.
Ela assoava o narizinho a cada poucos minutos, mas, quando dava preguiça, limitava-se a desentupi-lo com golpes de ar saídos de seu pulmão direito, pois o esquerdo, infortunadamente, encontrava-se obstruído.
Ela passava o diazinho, um tanto nublado, sentada à cadeira de palha de palha. Vestia, verde e vermelho, corezinhas que combinavam com seu novíssimo corte de cabelo, e pensei que talvez houvera mudado seu rosto por todo o avenir.
Ela, dona daquele dedãozinho que de início considerei tão estranho, comportava-se como um simpático e febril doente, que não chega a ocupar, mas que exige uma atenção especial para espirrozinhos, tossezinhas, ranhozinhos.
Ela estava mesmo bonitinha.
Escrito por Lé às 21h40
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