LXXXIV
A mulher a mais estranha é a que se casa com o padre. Eu explico: a tia tinha amigas cujo sonho era argolar o dedo do vigário. O problema primeiro é que o paroquiano já fazia a curva dos setenta, forçado que as cobiçosas obrigarem-se a olhar para um visitante, um jovenzinho, um confessor ocasional.
Houve vez em que se fez uma fila, de dobrar a Igreja em duas, só de moças já passadas atrás de um rabo de batina. O jovem, porém, resistiu, sabe-se lá com que poder: o do descaso, o de Deus, o da força de vontade, ou o mais forte de todos, qual seja, o medo?
Ocorre que nem todo vigário porta-se com dignidade ao servir a esse tal Deus, tão duvidoso quanto soberano. E soube um dia que a moça mais bonita era também filha de padre, o que já impedia um xingamento. Pois não apenas isso, tinha outra irmã, e a irmã era filha do mesmo, casado com a mui senhora sua mãe, ainda cumpridora dos domingos e festas, acendendo velhas a Deus e, na hora certa, ao Diabo.
Só pode ser coisa do cão ser tão bonita, disse a ela um dia em que pude. Pois não, e o cão é minha mãe, respondeu.
Escrito por Lé às 19h14
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LXXXV
A dúvida, contudo, ficava: que significavam aqueles olhos distantes, dobradiços, como os de uma mongolóide? (depois, viria a descobrir a improcedência médica e política da palava).
Repare que, no da garota bonita, os olhos estavam assim, como que a dar pistas, enquanto os de sua irmã, menos bela e sábia, não deixavam por mais. Havia, sim, um terceiro olho, por sob a pele, tão visionário que ou era o divino ou o encapetado.
Quis fazer perguntas, e mandei na forma de bilhete. Olhe aqui, minha filha, não é por nada não, mas já olhou se sua mãe, sob as saias,não tem uma bunda com um que de vermelha em demasia?
A tonta considerou ofensa, e das bravas, de modo que levou o bilhete à dita. A mulher, finalmente a história acaba, não há quem a agüente mais, foi magnânima. Manteve a fleuma, fez o feijão, o arroz e, como era sábado, disse às filhas: hoje é salsicha, espetadinha no garfo. E nem reclamem, que me cansei.
Escrito por Lé às 23h58
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LXXXVI
Mas nem todas agiam assim, e, por vezes, só a má-educação combate a inconveniência. Deu-se que a vizinha, antes de mudar-se, passou a chamar o vizinho, por outra, eu, de mulherzinha. Não é coisa que se ouça, mas, ouvindo-se, como reagir?
Confesso que pensava no assunto, tentava até relevar, ameaçar, quis a violência. Outro ensinamento, contudo, era que não se batia numa mulher, e alguns exageravam, "nem com uma flor". Não havia solução, e sem remédio, remediado estaria. Ocorre que ela passou do limite, aplicando um terminação feminina ao meu nome. Já estranho e incomum, o nome virava uma ofensa indescritível.
Perguntei à mãe, que ensinou: se assim chamá-lo outra vez, mostre que não é, baixe as calças. Assim o fiz. Ela, com seis anos, viu o que esperava e correu. À tarde, chegando da escola, sua mãe chamou-me. Desta vez, obrigado, baixei as calças e apanhei.
Que filha-da-puta, pensei.
Escrito por Lé às 23h53
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