História Invertida
uma hora este livro chega ao começo



LXXXVII

O episódio deu-se de modo diferente do descrito, queixa-se a mãe da vizinha, que nega ser verdade o narrado, como aliás já foi dito neste mesmo período.

"Apenas dei-lhe um esculacho moral, pois filha minha, primeiro, não xinga seus vizinhos, e, segundamente, não veio a omundo para observar tarados que exibem seus mínimos artefatos infantis no meio da rua."

O problema, senhora, é que a verdade é a que fica escrita, e daqui por diante a dona-mãe da vizinha entrou para os anais como uma agressora de menores, incapaz de compreender os meandros da sexualidade infantil e, portanto, merecedora de profundo desprezo.

Posso provar também que sei achar o tom da grosseria. Quer ver? "Sua filha que escreva um livro e diga que não viu muitos outros depois."

 



Escrito por Lé às 23h31
[ ] [ envie esta mensagem ]


LXXXVIII

Quem é melhor, o melhor é o PT. Quem é melhor, o melhor é o PT. Tinha dia em que só conseguia pensar isso - e por vezes até reduzia o tamanho da pensação: apenas repetia mudamente, louco é que não ia parecer: o PT, o PT, o PT.

Se isso cheira a obsessão, problema é de quem assim o pensa. Queria dizer que nessa época enfrenti os bonequinhos de luxo, bati em cabo eleitoral, gritei em praça pública. "Perche noi, della sinistra italiana", frase do diretor premiado, num filme esquecido e que virou meu herói, porque nós, da esquerda brasileira, cansamos de perder, mas não perdemos a compostura. Um dia a gente chega lá, mas se não der, não tem problema.

Pelo menos demos uns cascudos na polícia.

 



Escrito por Lé às 23h27
[ ] [ envie esta mensagem ]


LXXXIX

Coisa ridícula, mudar a história. Como dizer que bateu na polícia. Fizemos foi apanhar, com gosto de masoquista, provocamos, peitamos, festejamos o turco maluco que meteu um coco no papa, mas só para depois percebermos que felizes estaríamos talvez quem sabe se o homem apaixonado pela loira lésbica acertasse o rei do mundo, Ronald, como o palhaço, ator de quinta, lamentável no dizer e no fazer.

Confundiu-nos com bolivianos, para depois nosso subcomandante do capitalismo trocar bolivianos por peruanos. Fato é quem, quando a polícia não bate em estudante, algo está do avesso. O único governante que pôs a polícia para apitar com a molecada matou uma centena de presidiários, os outros baixaram o sarrafo, cumprindo o deve de cães de guarda.

Aliás, há palavras que caem na boca do povo, e aí não é fácil entendê-las. A entropia do sistema, a reconstrução da cidadania, condições normais de temperatura e pressão.

Ora, istos ou issos não existem.



Escrito por Lé às 23h22
[ ] [ envie esta mensagem ]


XC

Que alegria foi chegar à escola e encontrá-los derrotados. Vencidos, cabisbaixos, inferiorizados por uma nordestina, mulher aparentemente lésbica, eleita por milhões. Há pequenas perversões no comportamento adulto indiscretamente similares aos prazeres infantis.

Pois aquele dia, em que parecia ter o passado sido varrido para sua real significância, a lata do lixo da história, para que não nos esquivemos do lugar comum, sorri como o aluno adiantado que percebe o mais burrinho ser humilhado pela professora. É verdade que não deixara de todo a puberdade, mas tantas vezes vi o sentimento se repetir em outros e também em mim que já não podia classificá-lo de juvenil.

Foi sentimento de prazer, como se tivesse eu, pela escolha correta, politicamente certa (poderia trocar a order, ou seja, escrever certa, politicamente correta, mas isso geraria confusões conceituais desnecessárias num romance), mostrado a eles, tão burgueses, tão pobres, que o futuro migrara para mãos racionais e planejadoras. Pois não é propondo aos despossuídos (eufemismo mal empregado, anotaria o professor de redação, o único capaz de consertá-los) que vendam chicletes que se acaba com a miséria.

 



Escrito por Lé às 22h32
[ ] [ envie esta mensagem ]


XCI

Cães os há para todas as funções. Policiais domam cães para atacar as partes pudentas de quem eles querem massacrar, e dizem que nos quartéis, todo dia primeiro do ano, Ano Bom, o comandante pega um coitado, já destruído pela cegueira, pela sarna e pelo vício induzido de cocaína, dá-lhe um pedaço de pão embebido em álcool e grita: "Fora daqui, filho dum cão! Que toda a morte de gente ou de gado ou de manifestante que ocorra sob o nosso comando caia como um raio em sua cabeça!"

E daí?, pergunta você. Tradição. Isso vem da Inglaterra, explica o policial, treinado no Texas, onde a prática de tortura é necessária não apenas por questão de segurança interna, mas também por óbvios motivos de que não se ensina a massacrar um ser humano sem a cobaia, no caso, outro próprio ser humano.

Lá nos EUA, continua o bicho, musculoso e bem adestrado, a questão é didática; aqui, é prática: quem é que segura um povo desses, analfabeto e sem respeito qualquer pelas instituições do Estado-Nação?



Escrito por Lé às 22h17
[ ] [ envie esta mensagem ]


XCII

Como enganar professor. Isso merecia um curso, apesar do fato inquestionável de que já é em sala de aula que se aprende os meios e modos de transformar o trouxa em trouxa, achando-se gênio. O guri, assim nominado por razões de procedência e sotaque, exemplo apenas, era simplório: dizia que precisava porque precisava ir ao banheiro, donde se pode concluir que a precisão era verdadeira.

No entanto, precisava mesmo era pular o muro e espreitar-se pela casa do cego, japonês e jardineiro, possuidor do maior dos quintais do interior, em que se plantava de tudo, de acerola a serigüela, passando, claro, pelas bananas as mais variadas, pois ali tudo dava.

Outro, cujo apelido era também conseqüência do lugar de nascimento e do jeito de falar especial, preferia contar histórias, e, enquanto as contava, era seu vizinho de carteira quem respondia a prova, tendo como resultado a proficiência no idioma inglês, que nem a professora, também nortista e do mesmo Estado, sonhava. Aproveitando-se das notas maravilhosas, ambos os meninos corriam a pular o muro de alguns poucos metros, já devidamente perfurado de modo a reproduzir a eficiência da escada, atrás de pitangas e gabirobas, que era época.

Nunca viu gabiroba? Pois o cego vizinho à escola a vira, até sua mulher, que a lenda narra como uma gueixa maquiada metida no calorzão da região, dar-lhe desgosto suficiente para direcionar o revólver à própria têmpora, ainda numa época em que seus cabelos não exibiam cãs.



Escrito por Lé às 12h47
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil





BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, French



Meu humor



Histórico
22/07/2007 a 28/07/2007
18/02/2007 a 24/02/2007
09/07/2006 a 15/07/2006
02/07/2006 a 08/07/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
16/04/2006 a 22/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
12/03/2006 a 18/03/2006




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis