História Invertida
uma hora este livro chega ao começo



XCIII

Ocorre que a coragem era apenas mediana, e o tal vizinho só conseguiu cegar-se do olho direito. Não morreu, e ainda tornou-se deficiente.

Continuam os contadores de história, por vezes carregando uma viola de dez cordas, que menos é violão, é bem importante isso ficar entendido, que a dama regenerou-se, mas a tristeza seguiu, pois não aceitava o danado a idéia de enxergar sem profundidade. Argumentava que, uma vez inventada a perspectiva pelos pintores da renascença, não fazia qualquer sentido ver sem sem, e por isso sofria.

Decidiu-se por uma nova tentativa, novamente frustrada, resultante num segundo olho cegado e, portanto, na cegueira completa. Aí, não foi possível segurar a mulher, que partiu. E ficou ele ali, sem senhora, sem visitas, sem capacidade mesmo para procurar a arma e buscar uma tentativa final, botando-a na boca, para evitar qualquer desastre.

Um amigo, esse menos dado ao futebol e mais dedicado à leitura, foi claro: "Nossa sorte é ele estar vivo; em breve, vira assombração."



Escrito por Lé às 15h51
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XCIV

Quem viu diferente, que conte a sua história, pois a verdade não há. O tal do funcionário era um tanto bebum, mas não deixava de cumprir suas obrigações. Chegava sempre na hora no serviço, graças a um truque sujo da mulher, essa, sim, talvez responsável em excesso, que adiantava o relógio em quase vinte minutos, suficientes para tirá-lo da cama, ainda que a balde d'água.

Ele, por sua vez, não tinha hora para voltar, porque após um dia de trabalho diante daquelas maquinonas de escrever antigas, que exigiam treino e força do usuário, ninguém era de ferro, e sem uma branquinha (quiçá duas, porque não três) e um amendoinzinho, não havia quem tivesse paz nesse mundo.

A patroa que esperasse, cansar é que não ia, porque televisão e novela nunca foram de tirar o fôlego de dona-de-casa, isso indiscutível é.

Por tudo isso, a surpresa pegou o tal, quando um dia, já na madrugada, voltou ele para casa e percebeu a ausência da sua companheira. Nem casados eram, e nesse dia sentiu a falta do papel que tanto ela queria. Nem muito certa era a tal da relação, conforme gostava de dizer a psicóloga do posto de saúde, que de tanto em tanto tinha paciência para ouvir as reclamações da mulher e ainda lhe ensinar palavras inúteis. Faltou um laço, acreditava ele. E pensou no laço e lembrou-se de um rapaz que se tornou considerado na área, depois que tomou coragem e amarrou-se numa viga do telhado e pulou na cama, numa noite fria de um verão estranho.

Coragem maior não havia, supõe-se ingenuamente, e decidiu fazer o mesmo.

Assim se pode resumir a história desse casal, que entra no livro por razão da mais simples: eram vizinhos, e morte assim de vizinho não dá sorte. Azar, já não sei.

Quem me disse foi a filha, e mais certa não poderia estar. Era, por via das dúvidas, melhor mudar. 

 



Escrito por Lé às 18h02
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XCV

Mudança é o ato de deixar o mundo para trás. Fosse enumerar todos os que ficaram em diferentes passados, não haveria página suficiente neste livro. Cabe, portanto, citar alguns, os mais queridos e, claro os mais odiados. Porque são eles os que fizeram a gente, aceitemos a verdade ou a recusemos.

Sou um pouco dos filhos-da-puta que me perseguiram na infância, sou a garota que tinha a saia curta e a pele branca e que, num domingou pela manhã, chamou-me para que entrasse em sua casa e a visse no quarto apenas de calcinha, medindo a minha reação, que veio a ser a mais estulta imaginável. E quem negaria que a dita também aprendeu nesse dia comigo como encabular um pequeno otário, que seguiria apaixonado por ela, embora tal sentimento fosse deveras imerecido?

Não se trata aqui, diga-se, de vingar-me utilizando a frágil espada da literatura, lugar-comum, mas de pôr pingos nas letras devidas, nem sempre nos is. Agora, aceite ou não, há aqueles cuja oportunidade de retaliação será sempre aguardada, num sentimento vil, mas absolutamente necessário à preservação do espírito humano, desregrado por natureza.

Até hoje, espero encontrar no beco escuro o japonês de cabelo enrolado que me passou uma rasteira por trás no futebol, entre outros malfeitos, o chefe que jogou sal no caminho que seguia, forçando-me a desviar a rota, e o maconheiro que roubou a segunda namorada, com quem imaginiva formar um par inquestionável.

A todos esses cães, meu muito obrigado e meus pedidos de desculpas antecipados.



Escrito por Lé às 14h41
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XCVI

O por que de tão estranho, acima mencionado, exemplo, explico já, talvez numa rara passagem deste livro que se dá um futuro em relação ao pretérito, mas, por nossa sorte e lucro, também já passado.

Dez anos depois de a garota pequena que se sentava ao meu lado propor, como solução de todos os males da fome, que não se pedisse esmola, mas que se vendesse chiclete nos faróis, ouviu-se o mesmo de pessoa que se julgava sábia.

Era economista, ou jornalista, pouca diferença fazia, ambos os profissionais são bruxos em suas especialidades. E o tal virou-se e disse: que venham os perueiros, assim eles dão o jeito na própria vida. E não nos incomodam. E não me ameaçam nos faróis. E não vendem chicletes, que é isso para o lúmpem. E não, meu Deus, não me amolem, que preciso trabalhar.

Pouco importam as circunstâncias, pouco queriam dizer a conjuntura, na qual a senhora perua significaria desgraça e desrespeito. O importante era essa gente não querer entrar nas estatísticas de desemprego.

A menina engordara, crescera, mas seus argumentos continuavam a planar a alguns quilômetros da realidade, não como satélites, esses, ainda que distantes, capazes de nos fotografar, vigiar e dizer algo sobre a vida humana, claro que numa perspectiva enviesada. Não, pairava como lixo espacial, poluição que, qualquer dia, qualquer hora, cai, preferencialmente em África.



Escrito por Lé às 14h36
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