XCVII
Para virar senador, ele dizia a todos: muito boa a sua pergunta. Isso não é coisa de político, expliquei à mãe, é hábito de professor. E dos ruins. Voto nele não, que ainda vai nos dar muita dor de cabeça, pode vir a ser presidente.
E daria mesmo, mas que se faz constar aqui é que minha mãe não se rendeu, e escolheu outro nome, mais vermelho, mais católico, mais baixo, mais magro, de bigode. À toa, pois naquele ano, atitudes professorais assim faziam correr o sonho de que se podia explicar tudo e mudar o mundo pela simples explicação, sem esforço, sem briga. A sorte é que nem todos os professores agem assim, nem assim se defendem.
Escrito por Lé às 21h07
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XCVIII
Viado ou veado. Pensei muito no assunto, e conclui: o bicho é veado, a bicha é viado. Por que homem se preocupa imenso com isso? Essa questão é outra, e não foi dito ainda de onde veio a conclusão. Eu conto, veado, o bicho, não o que faz pensar. Viado, a bicha, nasce no extraviado, ou no transviado, e a questão toda gira em torno da via.
Não seja escatológico, não misture nunca merda e sêmen, evite o cacófatos... Ora, ora, nunca ganhei nada com isso. Prefiro mesmo é jogar na loteria.
Escrito por Lé às 20h46
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XCIX
Quem doma cavalo merece admiração, porque penetra à força na cabeça do bicho forte, repetia o velho boiadeiro, baixo como um pequeno demônio, que, não fosse a cor retinta, receberia na velha ilha a denominação de duente.
Quando cansou daquilo, mudou-se para a cidade, sentava-se na cadeira de cordas azuis e fumava um cigarro de palha, só admirando a casa que consiguira, muito legalmente, de meu tio, que não pagava o INSS.
Aquilo é que era domador, admirava o tio, vermelho devido à doença que entupia o suor, um defeito da pele, explicava o pai, dono de pernas fraqucas, que tinha de correr assim mesmo devido a outras duas doenças, uma da avó, outra da mãe.
Tanta doença no mundo, justificava a avó, enterrada numa cama de hospital, é motivo de duas cabeças, uma de cavalo, outra de boi, enterradas sob seu quarto. "Já disse a muita gente, mas ninguém tem coragem ou tempo, o que dá no mesmo, para acabar com esse sofrimento", chorava. Estava lá, pouco antes da coença que no interior é chamada só por doença, que ninguém é que se atreve a dizer seu nome, porque dá azar.
Escrito por Lé às 15h53
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