História Invertida
uma hora este livro chega ao começo



CII

O negócio bom da eleição é que ela deixa as coisas claras. Só fui para a esquerda porque os votos me indicaram o caminho mais complicado, a picada que talvez não leve a nada.

Senão, vejamos: naquela votação clássica, que ressuscitou o anticomunismo mais infanto-juvenil, havia os petistas e os defensores daquele que seria o presidente, cujo nome não convém lembrar, nem em papel, para não acordar o sete-peles. No meio, nós, classe média ofendida, por uns e por outros.

Na hora agá, contudo, não deixavam a esquerda fazer campanha, não podia entregar panfleto, porque não. Não se permitiria, avisou-me um suposto amigo, que defendia o seu.

O lado que corria pelo certo, em vez de exibir a sua propalada capacidade combativa, aconselhou-se com o futuro e fez as contas: não dava para correr o risco de perder os empregos no dia seguinte. É melhor se curvar, como não?

Mas nós, o que tínhamos a perder? O bom do estudante é essa disponibilidade: tem tempo à vontade, e a militância é o seu regalo. Partimos para cima, gritamos, empurramos, conquistamos um pequeno espaço, entre a corda posta pela justiça eleitoral e o exército pago com dinheiros e lanches. Depois disso, já não dava para continuar onde estávamos. Embrenhei-me.

 



Escrito por Lé às 17h28
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CIII

As empregadas sumiram deste relato, o que pode dar a impressão falsa de que também sumiram da vida, naqueles anos corridos e quentes, não tão quentes quanto os que viriam, mas ainda assim quentes.

Não é verdade. Continuaram lá, inclusive aquela que usava o quarto dos fundos de casa para encontrar o namorado, conforme narrou a vizinha, invejosa do corpo novo e são da moça, enquanto a gorda tinha de cuidar para que o diabetes não levasse a ela e ao marido.

Camponeses morando na cidade, explicou-me a boa pessoa que acabara de perder o emprego. A mãe, rememorava, pensava de modo semelhante, achava que podia controlar a vida da vizinha. A questão era a distância: de um sítio ao outro, quantas léguas não são, pergunto, pensando nos números pequenos. A vigilância entre as plantações é sempre menos intensiva, por isso tanta gente sofre tanto quando tanto vê, e de nada adianta denunciar, porque, se sobra polícia na cidade, falta justiça.

E não me venham negar o que venho de afirmar, e não enfureçam uma menina de quinze anos antes de o dia amanhecer, nem antes do anoitecer, pois homem não entende nada de bruxaria, e o senhor não tem o necessário para pagar pelo risco.



Escrito por Lé às 18h34
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