CIV
Houve um crime, e não foi o único, a mudança foi no endereço: o campo de futebol. Não foi durante a partida, nem durante o intervalo. Quem é que pode dizer de fato quando foi, se o lugar era cercado, e a cabeça foi encontrada no meio do gramado, depois de uma primeira noite de lua cheia, ainda encoberta por nuvens que ainda choviam, já passados um mês e meio da estação das águas?
Havia um suspeito, que era amigo meu, que negou, que seguiu negando, mesmo quando na delegacia o puseram de ponta cabeça, numa posição indecente até para as putas velhas que, hospedadas no asilo ao lado, serviam ao delegado. E negou não só porque não foi ele, mas porque não tinha como confirmar.
Tudo o que havia, de fato, era uma cabeça desconhecida, que eu, apenas eu, estranhamente, conhecia. Não era ela, mas representava ela, a menina, a dona do posto de gasolina. A cabeça era de mulher.
Escrito por Lé às 22h11
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CV
Nada pior que trabalhar numa indústria em meio a camponeses. Veja o caso da madeireira, também uma carvoaria, metida no meio da vila: ali vivia o marido da empregada e, por conseqüência, a própria.
O ambiente cheirava queimado, como não poderia deixar de ser, pois a existência de carvão mineral era pura invencionice, para iludir a fiscalização. E ali, em meio a tanta fuligem, viviam. Pior era o caminhão que, aquilo me assustou, não tinha porta, nem do lado do passageiro, nem do motorista. Nele eles namoravam, trabalhavam, passeavam pela cidade, quando, claro, não havia quem controlasse o mal uso da máquina.
Será que a empregada era negra daquele jeito por causa da poeira? Não poderia ser, logo depois descobri, com a mudança de um novo carvoeiro para a vizinhança, branco como só um sueco pode ser, e seus olhos azuis não se tingiram, embora sua pele esverdeasse. Viraria ele um sapo? Como podia dormir a empregada perto de tamanho perigo?
Um dia, isso tudo se auto-explicaria. Não esquenta a cabeça, dizia minha mãe, porque a senão a caspa vira mandiopã, informação claramente fantasiosa, mas que imediatamente estragou o gosto da iguaria.
Escrito por Lé às 22h07
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CVI
O gosto das frutas, esse vai mudando no decorrer incontrolável da idade.
Quem sabia de tal podia dizer com histórico conhecimento, visto que fora tanto pomareiro quanto carpinteiro, mas que era, principalmente, velho.
E não era velho de pouco, era velho de muito, e podia contar e classificar: dos seis aos oito, manga rosa; dos oito aos dez, jaboticaba; dos dez aos doze, goiaba; dos doze aos quatorze, a fruta foi outra, caju.
E seguia, até completar sua idade fictícia, pois o tempo também ensina a compor cuidadosamente a mentira, de modo a camuflá-la de verdade, no caso dos administradores, ou de sabedoria, no caso dos contadores, como costumava defender, sem argumentos, um contabilista vizinho de meu pai, que o ajudava com o imposto de renda.
Sei que só uma vez a idade do velho coincidiu com a minha, quando o assunto era fruta, e foi justamente no caso da ameixa. Mas aí já havíamos em muito passado do tempo de interesse desses registros, e portanto trata-se de caso que não compensa aprofundar. O que vale é a teoria.
Escrito por Lé às 18h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CVII
Havia um operário na família, criado em conjunto, que se meteu a sindicalista, acabou morto, não se sabe se pela polícia, se pelos companheiros. O avô foi camponês, mas depois comprou o bar. Do outro lado, este era dentista, e não morreu banguela, ao contrário da avó, depois viúva jovem, que usava corega.
Enfim, sempre há de tudo, até música, inclusive ruim, que se não houvesse, não haveria fim, pois faltaria o começar.
Escrito por Lé às 18h18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CVIII
Judeu, não conhecia. E, na região, não os havia. Digo como algo identificável, como os turcos, velhos conhecidos, na verdade libaneses. Alguns eram até primos, todos tinham lojas ou passavam pelas cidades. A simples existência do judeu era algo etéreo, quase religioso, ligado ao passado bem distante, dessas coisas que, de tão velhas, só se falam na igreja, numa ou noutra leitura, num ou noutro sermão, Páscoa sim, Páscoa não.
Uma amiga de minha irmã entrou na faculdade. Na primeira volta, trouxe a novidade: um namorado judeu. Contou que o encheu de perguntas. Horas tantas, ele desistiu, como ela também, no momento de recontar a história para os amigos: são tidos por bons negociantes, mais ou menos como os turcos.
No futuro, um colega se impressionaria: não existiam judeus, mas o que dizer dos livros? Bem se via que lá nunca estivera, lá onde os livros rareavam, e mesmo a TV tinha dois ou três canais. Também se via que não se dera conta daquela verdade essencial, de que sem a prática não viceja o saber. Mas também a essa conclusão só se chega depois de muito mourejar. Isso é que é.
Escrito por Lé às 18h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CIX
Portanto, um verbo como aquele, usado pelo costume, mais que pelo conhecimento, rebatia na cabeça das crianças, que sabiam o que era judiar, mas não entendiam a rezão daquela palavra. Porque a criança, quando se dá conta da lógica por trás da língua, passa a buscá-la freneticamente, enquanto aos outros parece apenas preocupada em se divertir.
Há muita palavra sem sentido, reconheceu a empregada, depois de ler uma história com a qual não podia concordar. E dizê-las pode ser mais perigoso que brincar com sapo mijão, desses que lançam veneno contra os olhos dos curiosos, que insistem em colocar o bicho para fumar, com o intuito de que explodam, por não dominarem o tragar como sabedoria.
Mas isso também não é coisa que se faça, pois de bicho não se judia, repetia a mulher, já quase não terminando a palavra, correndo para fazer o sinal da cruz e rezar uma salve-rainha, a mais mais das orações, e também a mais milagreira, por conta da força da cega paixão na mãe de misericórdia.
Escrito por Lé às 17h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CX
Numa viagem, o tempo corre mais se se dorme. Numa viagem, não convém olhar para a estrada, sob o risco de perder o controle do estômago. Numa viagem, o certo é não sentir o cheiro do ônibus, porque, se sujo, cheira a fezes, se limpo, a detergente com gosto de banheiro sujo, de estrada, ou seja, de merda.
No teatro, eles dizem merda antes de entrar em cena, contou o professor, que montou uma peça e nos pôs de protagonistas. Só podia ser doida essa gente de teatro, pois merda é palavra a se evitar, não por pecado, mas por questão de bom gosto, que é melhor desejar felicidade.
Escrito por Lé às 17h31
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CXI
No futebol, encontrava a felicidade. Mas também no futebol veio o primeiro sonho que me intrigou para sempre. Vi o centro-avante, loiro e perna-de-pau, avançando pela direita, chutando na trave, pegando o rebote, completando a jogada, fazendo um gol já inesperado. Vitória rara do Corinthians, em um ano triste para o esporte.
Depois, liguei a TV e vi a mesma conhecida cena, inclusive em cores, o que fazia aumentar o meu temor. Uma dúvida, porém, pôs-se, e já não consigo viver sem ela: sonhei de fato antes, ou achei que sonhei depois: Perguntei a muita gente se o mesmo já lhes ocorrera, até me recomendarem mesa branca.
Tremi, pois já ameaçara experimentos transcendentais com as primas, que diziam manobrar o copo. Melhor aceitar eternamente a dúvida, decidi, e nem tentar o truque da chave, que só funcionavam nos livros velhos, muito velhos de gente velha de quem desconfiava, como o Humberto de Campos.
Escrito por Lé às 16h27
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|