História Invertida
uma hora este livro chega ao começo



CXII

Um amigo é que me acalmou: vivendo mais dez anos, estava feliz. Aquilo era lição para tudo. Mesmo grandes gênios vivem só isso, pensei eu - pelo menos, são conhecidos paenas por esse perídodo. Pois Sócrates não era gênio, gênio do futebol, mas gênio? Na política, as coisas duram um pouco mais, no mínimo quatro anos, quarenta e poucos se você for gaúcho, o dobro se comunista, pois comunista, por não acreditar em outra vida, daqui não sai, daqui ninguém lhe tira.

É o que contou o coronel Apolônio, de artilharia, condecorado na França, lutador da resistência, fundador de partido depois de velho, de admirar.

Cada coisa tem sua escala de tempo, falava em japonês o vizinho da escola, e ninguém entendia. A tradução era de um amigo, ruim de bola, mas muito inteligente, sabedor das línguas que sua mãe e seus vizinhos falavam. Ele via no velho um sábio ou um demiurgo, embora ainda não houvesse aprendido o significado da palavra (e ainda há quem tente, filosoficamente, negar a existência do que não é nomeado).

Aquilo atravessou a década comigo, enquanto o colega bilíngüe aprendia também a jogar futebol, quebrando, como não, canelas adversárias.



Escrito por Lé às 12h07
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CXIII

Quantas horas o ônibus tomou de minha vida? Nada mais inútil que a estrada, enquanto não se chega ao fim do caminho. Premissa um. Premissa dois: de que vale o cansaço, se, ao se chegar, tudo segue o mesmo?

Viagem é consumo, provam os cadernos de turismo. Mas também é balanço. Li num jornal uma entrevista do poeta da pedra, que exemplificou, antes de o navio partir para a Espanha, pátria emprestada (enquanto o irmão deleitava-se em proclamar a Holanda o centro do mundo): tudo muda numa viagem, coisa pouca é que não significa; o Machado de Assis que o diga, que nunca saia do Rio de Janeiro, um dia ousou, cento e tantos quilômetros e, assim, nascia no realismo.

Coisa bonita, talvez, mas não era o caso único. O próprio tempo fez-me esquecer os outros, porque se exemplo ilustra, é a idéia que atravessa os anos.



Escrito por Lé às 12h06
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CXIV

O problema é que nada disso existe. Esse mundo seu, que tanto ocupa quem se arrisca a lê-lo, nem urbano nem rural é, doutor. Além disso, já de outras vezes alerto-o para a ausência de música, o que não combina com um relato, ainda que escrito. Isso há de tornar tudo muito inverossímel, irreal. O conselho meu é falsear: mude um pouca essas memórias dessa década perdida, também chamada de 80, para que pareçam eles mais verdadeiros.

Assim, quem sabe, restarão alguns interessados nesta tranqueira.

Sei que estou sendo duro, mas essa é questão outra, não vale a pena começar aqui debates sem fim. Insisto que não se pode acreditar num mundo assim tão peculiar, sem camponeses, sem operários - sem advogados ou médicos ou investigadores de polícia. Onde é que você ouviu dizer que isso pode se passar por literatura, ainda que da pior espécie?



Escrito por Lé às 12h06
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CXV

A resposta possível é que não há resposta. Não ouvi dizer nada e não pedi que ninguém comentasse o que aqui está escrito com antecedência. Críticas não se rebatem antes que façam sentido, e esta da música é uma delas. Fato é que já está chegando ao fim o relato, e quem achar por bem todo o direito de fechar estas páginas agora (de resto, digo o inútil e óbvio, pois também antes todos o tinham).

Mas, para que não se assustem os amigos que se viram citados e não se rebelem os parentes que tiveram a reputação abalada, o bom é que a eterna verdade seja mais uma vez dita: tudo é ficção, principalmente a memória.

Escrito por Lé às 12h05
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CXVI

Trinta e três vezes sabida é a tal história da saia, que uma inglesa fez questão de contar na saída do culto, ocorrido na cidade da avó, em que os protestantes presbiterianos se sobrepunham em número e poder aos católicos, arrebanhados pelo padre em meio aos índios do distrito.

Saia, sabe-se, quando sua borda vira para cima, formando um pequeno bolso, é sinal de que a mulher ganhará um presente, provavelmente uma saia nova, de quem é que não se diz, porque só a dona da veste é capaz de responder.

Aquilo correu a cidade, mas estranhamente não cruzou suas fronteiras, uma vez que pastores e suas mulheres inglesas, de saia, só se ouviam por ali, os vizinhos, especialmente os italianos, explicava a avó muitos anos depois, é que estranhavam a devoção a uma igreja falsa. Muita mulher nova dobrou a barra, na esperança de melhorar de vida, mas faltou a inglesa dizer: não vale abusar da vontade de mudar o futuro. Só o vento é que tem o direito, e isso também não é novidade.

Depois que a avó morreu, perguntei ao pai, que cozinhava, ser era verdade a história da saia. Não quis responder, que isso não era assunto de menino, pois.



Escrito por Lé às 12h05
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CXVII

Fome, eu nunca senti, fome daquelas que comem o estômago, que fazem barulho, que deixam a barriga como motor de fusca, fusca velho, que pega ora sim, ora não, alternando um barulho infernal com um silêncio triste.

E não confunda fome de fome com fome de regime, que as madames entendem tão bem, mas, por não bem diferençarem da outra, acham simples a questão nordestina, e paulistana, e carioca, e mineira, e de todos os que dormem sob viadutos e que exibem barriga cheia, mas cheia só de pão, e nem só de pão vive o homem, porque uma carninha vez ou outra, quanto mais vezes melhor, também se faz indispensável.

Meu pai cozinhava, fazia o tal do cachorro-quente, e eu perguntei: por que a gente não consegue nunca parar de pensar?



Escrito por Lé às 12h04
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