LXXII
Quintal, mais ou menos. A verdadeira paixão do meu pai era o futebol de corredor, bola de meia, e quem andoidecia era a vizinha, velha e proprietária de uma vassoura cujo cabo cutucava o nosso chão. Lembrava sua infância, bem como a caixa de sapatos, que herdei. Tudo isso depois do tiroteio na favela (nós morávamos numa boa casa na Vila Joaniza). O pai esvaziou os bolsos, alugou um apartamento grande perto do shopping, embaixo do aeroporto. Tinha mais medo do avião que das cápsulas de bala, doces lembranças de tiroteios. Mas o melhor é que podia engraxar os sapatos na rua, juntar algum dinheiro, comprar carrinhos. Meu pai proibiu. Era contrário à iniciativa. Mas ninguém o impedia de ir para a cozinha.
Escrito por Lé às 21h11
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LXXIII
Minha prima portuguesa também temia os aviões. Por quê, eu sinceramente não sei. A verade é que o primo outro é que era um perigo. Metido a aviador, sete anos, apontava para o céu e determinava: um Paulistinha. Na época, só conhecia árvores e uns pássaros. Assustava o pássaro preto, seu canto, sua cor. A cor do pássaro preto é a cor da morte sim senhor, dizia o homem negro que vendia quebra-queixo em frente à escola. Era vaticínio, era destino, era o quê? Ia para casa pensando: será que vou morrer? Enquanto isso, praticava malabarismo num muro de pedra, sob a mangueira, e minha irmã negociante vendia ingressos para o cirquinho. A tia, mais tranqüila, sentenciava: umbu de tanto dar ficou sem rabo.
Escrito por Lé às 20h56
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LXXIV
Quem me anunciou a primeira morte foi um colega, que contou: bala cor-de-rosa dá câncer.
Cor é sempre um perigo, avisava a avó, que descoloria os mamões em doces que não podia engolir. Já o câncer cor-de-rosa convenceu-me. Dei todas as balas ao arauto do incontrolável, que retonrou a sua casa, naquele ônibus apodrecido, chupando-as, feliz da vida.
Sou imediatamente que fora enganado. No mesmo dia, meu tio comprava um falso bilhete premiado na loteria. Quem não se engana não aprende a perceber a mentira.
Escrito por Lé às 20h53
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LXXV
Ledo e ivo engano. Parecia querer dizer algo. Não queria.
Tanta coisa falada e repetida sem sentido neste mundo que é difícil por fé nas verdades. A tia esquizofrênica é quem costurava a razão. Contava a história, repetidamente, de um homem que matara a família e depois dera um tiro na testa. Coisa de doido, coisa de doido. Depois, informava: não ia lavar a louça, não. Nem sempre havia pratos e copos sujos, registre-se.
Registrado também fica que a doideira é a melhor saída para disfunção maior, que é viver como se tudo fosse normal. A norma é a lei que ninguém cumpre, é a linha que ninguém traça, é o trilho paralelo que se encontra no infinito. Quem não sabe que três pontos formam um plano?
Pois o plano de Deus, trino todo poderoso, criado do céu e da terra, pai e filho e irmão da rainha mãe de misericórdia, esse é desconhecido. E o padre que levou o N., na ingenuidade, teve de jurar de pés juntos na igreja que Bibiana era santa, para mim não passava da mulher do capitão.
Escrito por Lé às 20h55
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LXXVI
A polícia pediu os nomes de quem batia panelas. A vizinha dançarina não titubeou. Minha mãe fugiu de fino, a autoridade captou no olhar, mas preferiu engrossar a vista. Estava do nosso lado, mas não podia fazer nada, as ordens vieram de cima, quão acima é que são elas.
A polícia também entrou no Carnaval e decretou-me assassino confesso, agarrou-me sem explicação, saiu nos pontapés, e eu só ouvia: é ele, é ele. Para explicar, não precisei de horas, apenas oras, e o dedo-duro teve de admitir: não é. A sua cara é vulgar, cuspiu o sargento, e eu tive de concordar. Tipo comum, vai ser o mesmo na vida. Determinei-me a estar sujeito todo o momento a qualquer surpresa na vida, qualquer surpresa do gênero desagradabilíssimo. Vira de lado, vira-lata.
Escrito por Lé às 22h05
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LXXVII
O segredo do hot-dog é que eles sempre se parecem, filosofou meu pai, já emendando que o artista é o mestre da repetição, o doutor da cópia.
Não é assim hoje, o que conta é a fusão de tendências, já que não se pode inovar. Considere: molho de tomate não substitui o catchup, mas que tal acrescentar batata-palha?
A idéia era boa, em frente à faculdade, quanto mais amido, mais satisfeita fica a larica, bicho que infestava os intervalos. Reconhecia o pai: ajudava no negócio do cachorro-quente.
Escrito por Lé às 22h01
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LXXVIII
Quem leu até aqui pode pensar: nunca nadou. Nem se afogou. Ocorre que não foi bem assim que se passou a jornada. Peixe é uma coisa, homem é outra. Porém não há prova em contrário, se alguém o afirmar. Pois os genes não são tão parecidos?
O que me cansa nessa história de genes parecidos é o seguinte: na hora de fazer o cálculo do risco da construção de uma usina nuclear, que peixe contestou o trabalho do homem? Ainda que os peixes reconheçam a ousadia e a suprema capacidade de não ouvir do predador maior, não está clara a razão de não se manifestarem.
Os cães, todos vendidos, não cansam de apoiar o mais forte, e tem razão a amiga quando diz que gato é mais inteligente. O cão, pobre, pensa ser homem. O gato acha que o homem também é gato. Não por acaso, morde peixe quando pode, numa vingaça talvez desnecessária pela cumplicidade.
A teoria está posta, a mesa está posta. Quem quiser que conteste. Mas respeite, faça-me o favor, a hora sagrada da refeição.
Escrito por Lé às 21h58
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LXXIX
Refeição, para a tia, era um belo pedaço de carne crua, especialmente quando faltava-lhe o comprimido de efeito poderoso. Outra preferência era pelos provérbios: gato escaldado tem medo de água fria, ria, aproveitando a rima passada. Mas isso só me chegou sem a poesia, de modo que não podemos passar a versão completa adiante.
Quando dava para cantar, a família tranquilizava-se: Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão. Não conhecia a versão politicamente incorreta, que não saía da boca das crianças, hoje, sobretudo, limpas na mais tenra idade, quando a tia ou a profa ensinam a não atirar o pau no gato, pois o gato-tô é nosso amigo-gô.
Pena, pois sem a boca da criança, a vala negra da linguagem perde seu poder adubatório.
Escrito por Lé às 21h03
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LXXX
O louco corria como o vento, no pátio da escola. Isso é lugar, perguntei-me, mas já me imaginando na mesma desabalada carreira. Estava só neste dia, ninguém me vigiava. Serei louco também, conclui. E saí na pressa maior que um garoto pode encontrar.
Pois tropecei. E na queda, um outro endoidecido, tal que também corria sozinha, acompanhou-me. Só que o tal, mais esclarecido, houve por bem abrir a boca, donde seus dentes de leite cravaram-se na minha orelha esquerda, passando esta a sangrar.
A irmã não podia com sangue, mas agüentou firme. Foi até o hospital, fiu a costura da corne, tudo ia bem, até que, num virar, o médico diagnosticou: a menina está com amidalite. Vai ter de operar.
Já? Já. Como, doutor, só vim ver o mano, o maninho, usou o diminutivo, mas não conseguiu despertar a mínima piedade. E o médico e seu assistente prenderam-na à cadeira, meteram um gás no seu rosto, ela começou a rir (como assim, perguntei-me, estarrecido). Dormiu.
Acordou cospindo (melhor dizendo, vomitando) sangue, o que mais detestava. Teve de se habituar.
Escrito por Lé às 15h22
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LXXXI
Só se vomita aquilo que se come, foi um ditado que correu, num dia em que faltaram médicos para tamanha atividade provocada por uma almôndega mal-preparada.
Pois bem, tive a chance de comprovar o erro do ditado, na vez única em que nada comi, apenas bebi, e o vômito reproduziu-se sem qualquer hesitação, sem alguma cerimônia.
E cerimônia é coisa séria. Pois houve ainda a vez em que chegou o videogame, o primeiro da segunda geração, e tomou a atenção de todos na casa. O jogo agora ia para a televisão, era solução para tudo, para a proibição das cartas de mulheres nuas (liberadas apenas para meu pai e minha avó), para a escassa programação televisiva, para os dias de chuva, em que o futebol, ainda que praticável, encontrava forte oposição familiar.
E jogamos. Jogamos eu, meu pai, minha tia. Senti-me o bicho da poesia: "Enrola, enrola, enrola tatu-bola/ Enrola teu pai, tua tia, tua sobrinha/ A terra tua é o mundo/ Que despreza a companhia...". De fato, todos envolveram-se no pecado, mas nenhum tivera tanta responsabilidade: afinal, o único que se propusera a ir à missa das sete, da noite, havia sido eu.
Deveria me confessar? Mas ainda nem passara pela minha primeira comunhão. A lua surgindo e eu decidi: hoje não tem cachorro-quente, mesmo que eles fossem sagrados no domingo.
Escrito por Lé às 19h23
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LXXXII
Ela gripou pela segunda vez, e pela segunda vez lançou seu corpinho por sobre a cama como quem deseja espalhar-se indefinidamente. Parecia um escargô, escapado da concha, parecia um boizinho, um carneirinho jogado no pasto, movimentando apenas as mandíbulas e deixando praticamente estéril o solo que sua boca podia alcançar.
Ela assoava o narizinho a cada poucos minutos, mas, quando dava preguiça, limitava-se a desentupi-lo com golpes de ar saídos de seu pulmão direito, pois o esquerdo, infortunadamente, encontrava-se obstruído.
Ela passava o diazinho, um tanto nublado, sentada à cadeira de palha de palha. Vestia, verde e vermelho, corezinhas que combinavam com seu novíssimo corte de cabelo, e pensei que talvez houvera mudado seu rosto por todo o avenir.
Ela, dona daquele dedãozinho que de início considerei tão estranho, comportava-se como um simpático e febril doente, que não chega a ocupar, mas que exige uma atenção especial para espirrozinhos, tossezinhas, ranhozinhos.
Ela estava mesmo bonitinha.
Escrito por Lé às 21h40
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LXXXIII
Tinha o mesmo nome que eu, coisa rara, raríssima, pois, havia algum lugar em que meu nome era comum, essse local ficava a um mil quilômetros de distância. A avó viera de um pouco mais longe, um mil e trezentos quilômetos, e deve ter trazido a sugestão na cabeça enquanto a mala, vazia, compunha-se de meia dúvia de trajes pobres e desbotados.
Pois o nome era o mesmo, a idade um pouco maior, a cidade, a vizinha, e o tiro foi, azar, fulminante. Jogou na roleta, e não entendi de cara, mas daí veio a explicação do tambor da arma e da bala única, que só era mortívera uma vez em meia dúzia, sete nos filmes americanos.
Morreu assim, bestamente, certamente havia droga envolvida, ninguém faz isso em sã consciência, argumentavam, especialmente a dona que se orgulhava dos peitos terem ficados mais bonitos depois terceiro filho.
Mais velha, a coroa retrucou: "Em dez anos, volte aqui e me responda se não cabem dois lápis sob a mama."
Com a mudança e as mudanças, pensei que nunca poderia um dia comprovar tão estranha tese, mas o destino não quis que eu morresse sem sanar esta dúvida.
Cabiam.
Escrito por Lé às 18h48
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LXXXIV
A mulher a mais estranha é a que se casa com o padre. Eu explico: a tia tinha amigas cujo sonho era argolar o dedo do vigário. O problema primeiro é que o paroquiano já fazia a curva dos setenta, forçado que as cobiçosas obrigarem-se a olhar para um visitante, um jovenzinho, um confessor ocasional.
Houve vez em que se fez uma fila, de dobrar a Igreja em duas, só de moças já passadas atrás de um rabo de batina. O jovem, porém, resistiu, sabe-se lá com que poder: o do descaso, o de Deus, o da força de vontade, ou o mais forte de todos, qual seja, o medo?
Ocorre que nem todo vigário porta-se com dignidade ao servir a esse tal Deus, tão duvidoso quanto soberano. E soube um dia que a moça mais bonita era também filha de padre, o que já impedia um xingamento. Pois não apenas isso, tinha outra irmã, e a irmã era filha do mesmo, casado com a mui senhora sua mãe, ainda cumpridora dos domingos e festas, acendendo velhas a Deus e, na hora certa, ao Diabo.
Só pode ser coisa do cão ser tão bonita, disse a ela um dia em que pude. Pois não, e o cão é minha mãe, respondeu.
Escrito por Lé às 19h14
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LXXXV
A dúvida, contudo, ficava: que significavam aqueles olhos distantes, dobradiços, como os de uma mongolóide? (depois, viria a descobrir a improcedência médica e política da palava).
Repare que, no da garota bonita, os olhos estavam assim, como que a dar pistas, enquanto os de sua irmã, menos bela e sábia, não deixavam por mais. Havia, sim, um terceiro olho, por sob a pele, tão visionário que ou era o divino ou o encapetado.
Quis fazer perguntas, e mandei na forma de bilhete. Olhe aqui, minha filha, não é por nada não, mas já olhou se sua mãe, sob as saias,não tem uma bunda com um que de vermelha em demasia?
A tonta considerou ofensa, e das bravas, de modo que levou o bilhete à dita. A mulher, finalmente a história acaba, não há quem a agüente mais, foi magnânima. Manteve a fleuma, fez o feijão, o arroz e, como era sábado, disse às filhas: hoje é salsicha, espetadinha no garfo. E nem reclamem, que me cansei.
Escrito por Lé às 23h58
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LXXXVI
Mas nem todas agiam assim, e, por vezes, só a má-educação combate a inconveniência. Deu-se que a vizinha, antes de mudar-se, passou a chamar o vizinho, por outra, eu, de mulherzinha. Não é coisa que se ouça, mas, ouvindo-se, como reagir?
Confesso que pensava no assunto, tentava até relevar, ameaçar, quis a violência. Outro ensinamento, contudo, era que não se batia numa mulher, e alguns exageravam, "nem com uma flor". Não havia solução, e sem remédio, remediado estaria. Ocorre que ela passou do limite, aplicando um terminação feminina ao meu nome. Já estranho e incomum, o nome virava uma ofensa indescritível.
Perguntei à mãe, que ensinou: se assim chamá-lo outra vez, mostre que não é, baixe as calças. Assim o fiz. Ela, com seis anos, viu o que esperava e correu. À tarde, chegando da escola, sua mãe chamou-me. Desta vez, obrigado, baixei as calças e apanhei.
Que filha-da-puta, pensei.
Escrito por Lé às 23h53
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